Possivelmente os bons hábitos alimentares estejam relacionados com uma essencial relação que o neozelandês tem com a natureza. As cidades – pequenas e médias – têm pouquíssimo interesse e, ao menos as da ilha norte, não oferecem transporte coletivo, têm poucos espaços públicos, um traçado urbano sem grandes surpresas e uma arquitetura totalmente dirigida ao comércio, esses fatores direcionam aos moradores – que podem – a se isolarem em pitorescos e desérticos subúrbios jardins. O que faz o país ser tão atraente é, sem dúvida, sua natureza e a forma como sua população e o Estado lidam com ela.
Depois de algumas aulas de direção no lado direito do carro (e no esquerdo da rua) com nosso amigo Luis encaramos o aluguel de um automóvel, nos rendendo a impossibilidade de se mover de outra forma. O carro – além da troca de lado – para nosso desespero era hidramático, o que nos fez perder ao menos 20 minutos tentando entender seu funcionamento – d•3, D-1/%, R, P... – que parecia mais uma equação de vestibular. Depois de constatar que o carro não tinha manual criamos coragem e perguntamos ao primeiro cidadão que passou pela rua.
Rodamos quase 3000,00 quilômetros em uma superfície quadrada relativamente pequena (a Ilha Norte) e foi mais do que suficiente para entendermos a diversidade geográfica desta parte do país: cavernas enormes (algumas com uma espécie de larva disfarçada de vagalumes azuis, os gloworms), vulcões em extinção, regiões onde saem fumaça e água quente do chão, lagos enormes, cachoeiras, cordilheiras de montanhas, pistas de esqui e praias inacreditáveis, compondo um incontável número de parques nacionais. Tudo disponível apenas para quatro milhões de sortudos. Conversando com outro amigo que por lá mora, Silvério, é comum esquiar pelas manhãs, descer a montanha e surfar pela tarde, num único dia.
O incrível é ver como a própria população utiliza esses gigantescos espaços públicos que são os parques naturais, seja viajando em bicicleta, em trailers, com filhos recém nascido ou comemorando a boda de diamante. A sensação que dá é que o importante para um neozelandês é permanecer o mínimo possível na cidade e, portanto, viajar muito.
Para que isso ocorra o Estado, junto com a iniciativa privada, oferecem uma estrutura incrível para quem se dispõe a viajar e usufruir dos parques naturais. Começando pela informação. Em cada cidade existe uma loja de informação turística que oferece GRATUITAMENTE centenas e centenas de: a) guias para quem quer surfar; b) guias para quem quer comer comida chinesa; c) guias para quem quer fazer escaladas; d) guias para quem quer descansar na região nordeste da ilha norte; e) e uma longa lista de etc. E para melhorar as pessoas que trabalham nessas lojas estão dispostas a passar horas falando dos inúmeros lugares que você não pode deixar de conhecer.
Passada a fase preparatória e já com uns 45 guias dentro do carro pusemos novamente o pé na estrada. Rapidamente se percebe que na verdade o país é praticamente um único e imenso parque nacional, onde até as placas de comunicação visual e de informação – do tipo, “caminhada com grau de dificuldade 3 entre tais e tais pontos com duração de 3,5 horas” – ftambém são padronizadas, seguindo a mesma cor, mesmo material e a mesma preocupação em informar o viajante que a usada na praia do outro lado do país. Em algumas praias desertas e de difícil acesso chegamos a encontrar banheiros com vista para o mar (sentado), tudo de madeira e projetado, provavelmente, por um arquiteto. No aeroporto deveria ter uma dessas placas “Bem vindos ao Parque Nacional da Nova Zelândia...”
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