quinta-feira, 29 de abril de 2010

Templos (para arquitetos ou budistas)

Ainda que em meio à paisagem urbana descrita anteriormente os arranha-céus tenham uma enorme presença, não competem com os enormes templos budistas de Bangkok, relativamente recentes quando comparados a outros complexos religiosos do sudeste asiático, como por exemplo, os edifícios erigidos durante o império Khmer (Camboja, Tailandia, Vietnam entre os séculos IX e XIII). Praticamente todos os templos espalhados pela cidade foram construídos num período conhecido por Rattanakosin a partir do século XVIII. Os mais importantes formam grandes recintos murados que contêm um conjunto de edifícios destinados ao exercício do budismo (Estupas). Geralmente estão organizados levando em consideração a orientação solar e deixando evidente a hierarquia entre os diferentes usos, portanto os edifícios de menor importância se situam na periferia do conjunto, enquanto os “Bots” – edifícios destinados aos monges – e o “Wihans” – destinados aos peregrinos e visitantes ocasionais – ocupam a parte central e se destacam pelas dimensões e riqueza formal. Na maioria dos casos os principais edifícios – Bots e Wihans – chamam a atenção pela complexidade volumétrica, pelo sistema construtivo usado e pelos ornamentos; todos esses aspectos concentrados nos seus telhados que contrastam radicalmente com a simplicidade das paredes brancas nas quais se apóiam.

Entre os conjuntos mais importantes de Bangkok se destaca o conhecido como Wat Pho, não exatamente por suas dimensões e por oficialmente ser o mais antigo da capital Tailandesa, mas pela espacialidade criada pela sucessão dos seus diferentes pátios formados entre o Bot e os Wihans.

Outro exemplo particular é o Wat Arun, um complexo formado principalmente por cinco torres (prangs) – uma central e de maior altura e as outras quatro nas extremidades do conjunto – revestidas por mosaicos de cerâmica. Ao contrário do Wat Pho, nega por completo a ideia de espaço interior e sua relação com o espaço exterior. Assumindo um papel monumental, sua força e dirigida à sua presença na paisagem urbana, nas margens do rio Chao Phraya.

Por traz do exotismo, exuberância e singularidade – ao menos para olhos ocidentais – esses templos são capazes de criar espaços de impressionante tranqüilidade em meio à turbulenta Bangkok, proporcionando agradáveis espaços públicos que transcendem seu papel religioso e se fundem com a malha urbana e a dinâmica da cidade.


Casas tailandesas (para arquitetos)

As casas rurais do sul da Tailândia – que variam muito pouco para as outras regiões do país –, são de uma simplicidade e lógica tremendas. O mesmo arquétipo está presente em alguns templos budistas, em quiosques de restaurantes, paradas de ônibus ou nos pequenos altares na entrada das casas.

O material, quase exclusivo, é a madeira, e suas plantas têm basicamente formas retangulares ou quadradas. Quase todas estão elevadas do solo por pilares, o que as protege: das inundações, nas regiões de chuvas fortes; de animais, em zonas mais remotas; ou são usadas como garagens ou varandas em zonas mais urbanas. Os telhados – que variam o tipo de ornamentação segundo cada região do país – partem a quatro águas, formando normalmente uma varanda ao redor do volume fechado, e se convertem em duas águas com maior inclinação.

terça-feira, 6 de abril de 2010

Nova Zelândia


Queridos amigos mexicanos

Nossa primeira semana na Nova Zelândia foi uma espécie de presente do destino. Luis, Norma e a pequena Carla são mexicanos e antigos amigos de Barcelona. Há dois meses deixaram tudo para trás – no México – e se mudaram para Hastings, na costa oeste da Nova Zelândia, para estudar o método pedagógico antroposófico. Nos dias em que estivemos com eles tivemos o prazer e a oportunidade de participar e compartilhar do dia a dia dos três na pequena casa onde moram no subúrbio de Havelock, entre pequenos rituais, exercícios e muita conversa boa.

Strawberry Patchs x Burger Kings

Com o Luis e a Norma descobrimos também que o neozelandês tem uma enorme aptidão para a alimentação saudável, ao contrário do que se pode esperar de uma ex-colônia inglesa. De fato, apesar dos Starbucks, Mc Donalds e Burger Kings, a alimentação orgânica, a biodinâmica, e outros hábitos alimentares saudáveis estão, aparentemente, bastante arraigados à cultura neozelandesa. Um exemplo são os muitos lugares – as famosas “farms” –, onde você mesmo colhe a fruta que vai comprar. Uma espécie de “drive-thru” ou fast-food ao contrário. Fomos a uma que se chama “Strawberry Patch”, você pega o seu balde, vai para a área de plantação, colhe os seus morangos e leva-os para pesar e pagar. Além disso, tem a possibilidade de pegar um punhado deles e passar por uma maquina, onde sai um sorvete das frutas frescas.

Quatro milhões de sortudos morando num gigantesco parque natural

Possivelmente os bons hábitos alimentares estejam relacionados com uma essencial relação que o neozelandês tem com a natureza. As cidades – pequenas e médias – têm pouquíssimo interesse e, ao menos as da ilha norte, não oferecem transporte coletivo, têm poucos espaços públicos, um traçado urbano sem grandes surpresas e uma arquitetura totalmente dirigida ao comércio, esses fatores direcionam aos moradores – que podem – a se isolarem em pitorescos e desérticos subúrbios jardins. O que faz o país ser tão atraente é, sem dúvida, sua natureza e a forma como sua população e o Estado lidam com ela.
Depois de algumas aulas de direção no lado direito do carro (e no esquerdo da rua) com nosso amigo Luis encaramos o aluguel de um automóvel, nos rendendo a impossibilidade de se mover de outra forma. O carro – além da troca de lado – para nosso desespero era hidramático, o que nos fez perder ao menos 20 minutos tentando entender seu funcionamento – d•3, D-1/%, R, P... – que parecia mais uma equação de vestibular. Depois de constatar que o carro não tinha manual criamos coragem e perguntamos ao primeiro cidadão que passou pela rua.
Rodamos quase 3000,00 quilômetros em uma superfície quadrada relativamente pequena (a Ilha Norte) e foi mais do que suficiente para entendermos a diversidade geográfica desta parte do país: cavernas enormes (algumas com uma espécie de larva disfarçada de vagalumes azuis, os gloworms), vulcões em extinção, regiões onde saem fumaça e água quente do chão, lagos enormes, cachoeiras, cordilheiras de montanhas, pistas de esqui e praias inacreditáveis, compondo um incontável número de parques nacionais. Tudo disponível apenas para quatro milhões de sortudos. Conversando com outro amigo que por lá mora, Silvério, é comum esquiar pelas manhãs, descer a montanha e surfar pela tarde, num único dia.
O incrível é ver como a própria população utiliza esses gigantescos espaços públicos que são os parques naturais, seja viajando em bicicleta, em trailers, com filhos recém nascido ou comemorando a boda de diamante. A sensação que dá é que o importante para um neozelandês é permanecer o mínimo possível na cidade e, portanto, viajar muito.
Para que isso ocorra o Estado, junto com a iniciativa privada, oferecem uma estrutura incrível para quem se dispõe a viajar e usufruir dos parques naturais. Começando pela informação. Em cada cidade existe uma loja de informação turística que oferece GRATUITAMENTE centenas e centenas de: a) guias para quem quer surfar; b) guias para quem quer comer comida chinesa; c) guias para quem quer fazer escaladas; d) guias para quem quer descansar na região nordeste da ilha norte; e) e uma longa lista de etc. E para melhorar as pessoas que trabalham nessas lojas estão dispostas a passar horas falando dos inúmeros lugares que você não pode deixar de conhecer.
Passada a fase preparatória e já com uns 45 guias dentro do carro pusemos novamente o pé na estrada. Rapidamente se percebe que na verdade o país é praticamente um único e imenso parque nacional, onde até as placas de comunicação visual e de informação – do tipo, “caminhada com grau de dificuldade 3 entre tais e tais pontos com duração de 3,5 horas” – ftambém são padronizadas, seguindo a mesma cor, mesmo material e a mesma preocupação em informar o viajante que a usada na praia do outro lado do país. Em algumas praias desertas e de difícil acesso chegamos a encontrar banheiros com vista para o mar (sentado), tudo de madeira e projetado, provavelmente, por um arquiteto. No aeroporto deveria ter uma dessas placas “Bem vindos ao Parque Nacional da Nova Zelândia...”







Auckland

Auckland, a maior cidade neozelandesa, é uma pequena, atraente e contraditória metrópole. Através de um primeiro e desatento exame a cidade parece pouco interessante, dispersa, com enormes viadutos e inúmeros edifícios de vidro com formas esquisitas, além da quantidade exagerada de publicidade, fazendo com que pareça uma miniatura de metrópole asiática sem tudo o que estas oferecem. Essa impressão é ainda reforçada pela presença massiva de estudantes chineses endinheirados que optam em cursar uma universidade fora da China.
Pouco a pouco, essa sensação de urbe caótica e desconexa vai se diluindo e se revelando a convivência entre duas cidades justapostas: a metrópole financeira e a “Cidades das Velas”, título que lhe foi dada devido a que tenha o maior número de barcos a vela por números de habitantes.
Depois de um período de adaptação Auckland se revela como uma cidade repleta de marinas, bares, restaurantes em antigos bairros operários, convertidos em “alternativos”, e caracterizados por um número incrível de igrejas e casas de madeira.

Arquitetura Moderna em Auckland (apenas para arquitetos)

A lógica faz pensar que uma cidade tão jovem – como uma historia de apenas 170 anos – em um país tão bem sucedido fosse um lugar proveitoso para o desenvolvimento de uma arquitetura com características Modernas em meados do século XX, entretanto, não foi exatamente isso que aconteceu. Em Auckland, através de um exame superficial, parecem existir três grandes grupos de arquiteturas: 1) os desinteressantes edifícios neoclássicos, que tentam, a todo custo, outorgar um caráter exterior a uma historia e paisagem local; 2) os edifícios altos, vinculados às grandes empresas multinacionais, que para não se repetirem buscam no exagero formal sua distinção; 3) pitorescas casas e igrejas de madeira que sofreram uma importante influência da cultura Maorí; 4) nessa situação, onde se salvam apenas as casas e igrejas de madeira, chamam também a atenção os enormes, limpos e agradáveis parques.
Apesar da condição descrita anteriormente é possível encontrar alguns poucos edifícios representativos do século XX que manifestam diferentes influências – alemã, norte-americana e inglesa – em diferentes períodos:

Residência arquiteto Horace Massey, 1935
Igreja de Todos os Santos, arquiteto Richard Toy, 1956 – 1958
Faculdade de Engenharia, W. R. Mitchell, 1962 – 1969
Faculdade de Arquitetura, 1974 – 1978


quarta-feira, 24 de março de 2010

Chile



Gastronomia chilena

Sebastián é um fisioterapeuta que a Juliana tinha conhecido em Barcelona. Ele nos levou, junto com a Andréia sua esposa, por todas as partes de Santiago. Sem medirem esforços, fizeram com que submergíssemos na deliciosa gastronomia chilena. Quem passar por Santiago não deixe de comer “plateada”, uma carne saborosíssima; de provar o vinho “Carmener”; e o sorvete de chocolate com manjericão do Empório das Rosas.


De Neruda a Dubai

Sebastián e Andréia nos levaram também a “Isla Negra”, onde está uma das casas de Neruda. Confesso que meu interesse passava também pelo fato do projeto ter sido realizado conjuntamente com o arquiteto catalão exilado no Chile, German Rodriguez Arias. Entretanto o projeto tem menor importância quando comparado à paisagem da Isla Negra emoldurada pelas janelas da casa e aos infindáveis objetos que Neruda colecionou em seu interior, idealizando um universo próprio carregado de sensibilidade, simbolismo, e como não podia ser diferente, de enorme carga poética. Apenas para citarmos um exemplo, a coleção de barcos dentro de garrafas era colocada numa janela frente ao mar, para que, desde dentro da casa, parecessem que os barcos seguiam ainda navegando.
A trinta quilômetros mais ou menos daí, ainda na costa, fomos surpreendidos pelo condomínio de edifícios “San Alfonso del Mar”, que detêm orgulhosamente o titulo de possuir a maior piscina do mundo, justamente aí na frente do mar onde os barcos de Neruda seguem navegando. A surpresa não foi ocasionada pelas dimensões da piscina e sim pelo paradoxo estabelecido entre a sensibilidade entrevista nos objetos da casa de Neruda e a total falta de critério daquela gigantesca e contraditória obra do ser humano.